Livro traz retrato revelador sobre o Google

Se o Google fosse uma pessoa, Tim Wu, professor de Direito na Universidade de Colúmbia e veterano do Vale do Silício, teria dito, de acordo com o livro Googled – The End of the World as We Know It (Googled: o fim do mundo como o conhecemos, em tradução livre), que a companhia “tem todos os defeitos e todas as virtudes de um clássico geek do Vale do Silício”.
A observação é ecoada pelo autor do livro, Ken Auletta, que em Googled retrata a empresa como grande e inovadora mas ocasionalmente inepta em termos sociais, combinando ingenuidade e arrogância em seu relacionamento com o restante do mundo.
O livro é mais um trabalho jornalístico objetivo do que um tratado polêmico, e oferece um retrato revelador de uma empresa que mudou paradigmas e em 11 anos de atuação alterou radicalmente o cenário da mídia e dos negócios, mas que também tem momentos característicos da espécie de miopia associada ao hemisfério esquerdo do cérebro – ou seja, um ponto de vista propelido pela ciência e engenharia que valoriza dados, eficiência e crescimento mas desconsidera preocupações mais humanas e políticas, tais como a privacidade e os direitos autorais.
A fundação do Google por Larry Page e Sergey Brin, e sua ascensão meteórica, já foram relatadas muitas vezes, em livros como Planet Google (2008), de Randall Stross, The Google Story (2005), de David Vise e Mark Malseed, e O que o Google faria? (2009), de Jeff Jarvis. Reportagens de televisão já revelaram a atmosfera relaxada e quase universitária da companhia, e artigos para jornais e revistas já desconstruíram sua ênfase no trabalho de equipe e seu apego a ideias audaciosas que a levam a violar fronteiras.
Em Googled, Auletta não apenas amplifica esses retratos anteriores por meio de novas entrevistas com os líderes da empresa como aproveita sua experiência como colunista da revista New Yorker para posicionar a ascensão e expansão mundial do Google no contexto da revolução digital e da crise que a mídia tradicional enfrenta devido à perda de fontes tradicionais de receita, à medida que o público passa a depender cada vez mais da internet como fornecedora de notícias, filmes, música e vídeos.
Auletta escreve que “boa parte do planeta já vive sob a influência do Google, e a empresa se tornou, como disse Larry Page, ‘parte das vidas das pessoas, como escovar os dentes'”. Auletta afirma que o Google “transformou a maneira pela qual buscamos e usamos a informação, nos ofereceu o equivalente a uma secretária digital, tornou governos, empresas e outras instituições mais transparentes, serviu como prestador de serviços e empregador modelo, simplificou o complexo e se tornou exemplo de uma máxima sempre repetida mas raramente seguida, a que recomenda confiar nos clientes”.
“Google” se tornou um termo tão comum que o nome da empresa virou verbo. “O índice do serviço de buscas continha um trilhão de páginas da web em 2008”, escreve Auletta, “e de acordo com Brin a cada quatro horas o Google indexa o equivalente a todo o conteúdo da Biblioteca do Congresso americano”.
Tendo adquirido o YouTube, o maior dos serviços de vídeo que oferecem conteúdo gerado por usuários, em 2006, e a DoubleClick, a mais conhecida agência de marketing digital, em 2007, ele prossegue, o Google respondeu por 40% dos US$ 23 bilhões investidos em publicidade online nos Estados Unidos, e pela mesma proporção dos US$ 54 bilhões em publicidade mundial. Ele acrescentou que a companhia conduz cerca de três milhões de buscas ao dia, armazena cerca de 25 bilhões de tetabits (quatrilhões de bits) de dados e planeja digitalizar 20 milhões de livros.
O famoso lema do Google é “não faça o mal”, e em seus primeiros dias, afirma Auletta, Page e Brin exibiam “um idealismo quase messiânico”. “Eles lançaram o Google com a fervorosa crença de que a publicidade enganava as pessoas para forçá-las a gastar dinheiro, e que a internet fomentaria um ethos democrático que as libertaria”. E no entanto foi a publicidade que fez do Google um gigante do século XXI.
Privacidade,censura e confiança
O crescimento exponencial da empresa alimentou as reclamações de críticos que acreditam que seu tamanho e poder a estejam transformando em outra Microsoft, um Império do Mal que sufoca concorrentes e absorve talentos como um rolo compressor digital que demole a mídia tradicional para ocupar novos terrenos; um colosso dos dados com algo de Grande Irmão, que poderia ameaçar a privacidade dos consumidores e subverter as leis de direitos autorais.
Nos últimos anos, o Google vem atraindo cada vez mais atenção adversa devido a algumas decisões controvertidas. O plano de digitalizar milhões de livros – o conteúdo seria escaneado e aberto a buscas – incomodou escritores e editoras, que veem o plano como ameaça aos direitos de propriedade intelectual e como convite à pirataria, já que livros armazenados em bancos de dados, tais como a música online, estariam vulneráveis a hackers.
O Google também foi criticado por aceitar as normas chinesas de censura. (Em 2006, seu presidente-executivo, Eric Schmidt, disse que “considero que seria arrogante de nossa parte chegar a um país no qual mal começamos a operar e dizer ao seu governo como ele deveria funcionar”.) E, como Auletta observa em seu trabalho, a armazenagem de um imenso volume de dados sobre os seus usuários desperta questões graves de proteção de privacidade, especialmente porque o Google admite que está no negócio da publicidade e parece ávido por intermediar contatos entre seus usuários e os anunciantes.
Porque o Google “desfruta de reputação de confiabilidade merecida junto aos usuários”, Auletta afirma que “seria difícil imaginar uma questão capaz de colocar em risco essa confiança com mais rapidez que a privacidade”. Ele acrescenta que “ouvi um executivo do Google murmurar que a privacidade é uma bomba atômica, porque nosso sucesso se baseia na confiança”.
Auletta escreve que caso os usuários “percam a confiança no Google, acreditem que seus dados pessoais estão sendo explorados e transmitidos a anunciantes (ou governos), a empresa que costuma ser considerada como uma das mais confiáveis marcas do mundo estaria cometendo suicídio”.
Outros problemas são causados pelo crescimento explosivo e muitas vezes desordenado do Google, que continua a ingressar em novos territórios, como a computação em nuvem, a telefonia móvel e até uma enciclopédia semelhante à Wikipédia, chamada Knol. Ao fazê-lo, não só ganharia novos concorrentes como corre o risco, na opinião de alguns críticos, de perder seu foco. O Google “está lançando produtos demais e seus investimentos são muito dispersos”, afirmou um antigo executivo da empresa.
Futuro
Será que o Google continuará concentrado primordialmente nas buscas e naquilo que Wu define como “uma estética de engenheiros, que envolve fornecer aos usuários o que eles querem, o mais rápido possível, e sair do caminho?” Ou a empresa se tornará um destino final em lugar de um intermediário, operando como plataforma e fonte de conteúdo? Como a aversão de seus fundadores à burocracia poderá ser enquadrada à gestão de um império em rápido crescimento? Os rivais cada vez mais hostis (entre os quais Microsoft, Verizon e Facebook) formarão alianças efetivas e capazes de deter o avanço do Google? O governo ameaçará o crescimento da empresa por meio da aplicação de normas antitruste?
“O Google parece bem posicionado, para o futuro previsível”, conclui Auletta, “mas vale lembrar que poucas empresas são capazes de sustentar seu domínio. Houve época em que ninguém acreditava que as três grandes montadoras de automóveis tropeçariam, ou as três grandes redes de TV aberta, ou a AT&T, IBM e America Online. Para empresas com históricos de erros sérios – Apple, IBM -, era difícil imaginar que conseguissem se recuperar, mas foi o que fizeram”.
Livro: Googled – The End of the World as We Know It
Michiko Kakutani| Tradução: Paulo Migliacci 
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